quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Hans, o Alemão

(Os bebés)

Capítulo 7

O tempo foi passando e a Carlota, que eu agora via muito raramente e apenas de longe, estava pesada, barriguda, mas linda como só ela era.

A “mamã”, aquela senhora baixinha e simpática (que eu já tinha achado muito mais simpática, devo dizer), não tirava os olhos dela acompanhando-a constantemente nos seus passeios e organizando-lhe o quarto com tudo o que eventualmente fosse necessário para o momento crucial que rapidamente se aproximava.

Eu andava cada vez mais nervoso e agitado. Tentava conversar com os amigos, distrair-me, aprender coisas novas, mas nada parecia resultar.

Até que uma bela manhã (era bela de qualquer maneira embora não faça a mais pequena ideia se estava bonita ou cinzenta), a mamã me foi acordar e me trouxe ao quarto dela onde me deparei com a cena mais maravilhosa que algum dia possa ter imaginado. A Carlota estava deitada na sua cama, linda como sempre embora com um ar um pouco fatigado e, junto dela, meio perdidos no meio do seu sedoso pelo encontravam-se quatro lindas criaturas, indefesas, totalmente dependentes, que se agarravam à mãe desesperadamente, tentando alimentar-se. A mãe, sempre serena, aconchegava-os, lambia-os, empurrava-os gentilmente para os mamilos disponíveis, e apresentava-os orgulhosamente para que pudessem ser vistos: Os meus filhos!

Percebi que tinha dois meninos e duas meninas cada um mais lindo do que o outro. Nesse dia e em alguns outros seguintes, pude ficar junto da Carlota partilhando com ela, muito desajeitadamente, devo dizer, as obrigações de um chefe de família.

Estava orgulhosíssimo! Quando vinha para o meu quarto pavoneava-me indecentemente vaidoso perante os meus amigos como se ser pai fosse algo que só eu tinha tido o privilégio de ser.



(A Carlota com dois, enquanto eu tomava conta dos outros dois. Estava exausta a minha beldade)

Bom, o tempo foi passando, os bebés foram crescendo tornando-se cada vez mais bonitos mas também mais irrequietos e todas as atenções eram poucas para evitar acidentes.

Quando começaram a descer as escadas, sempre com a supervisão da Carlota, a minha e, sobretudo a dos elementos humanos lá de casa, verificámos que algo de estranho se passava com a que fora sempre a mais pequena e tinha uma caudinha toda enroladinha em vez das caudas imponentemente compridas dos irmãos, a Luna. Sempre tinha constituído motivo para uma certa apreensão o facto de ter nascido com aquela estranha cauda, mas que agora não conseguisse descer as escadas, caindo constantemente quando os seus irmãos o faziam com toda a facilidade, isso era mesmo preocupante.

(A Luna)

A mamã, sempre atenta, suspeitou que alguma coisa não estivesse bem com ela. Ia buscá-la lá a cima para acompanhar os irmãos ou ela cairia e ficaria a chorar sem saber o que fazer no meio da escada. A Carlota, não lhe ligava muita importância e deixava-a ficar a miar. De princípio estranhei a atitude tendo-a achado até de uma grande insensibilidade e, por vezes, ia lá eu buscá-la. Contudo verifiquei que a Carlota não ficava nada satisfeita e eu levava sempre um raspanete. Percebi mais tarde que a mãe estava a tentar incentivá-la a perder o medo, porque era de medo que a Carlota julgava tratar-se.

Contudo, a tal senhora simpática, verdadeiramente simpática e cuidadosa de quem certamente se lembram, estranhou que este comportamento se mantivesse e há que levar as crianças e a mãe ao médico.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Hans, o Alemão


(Imagem: "Freedom versus Fear" by Athelo)

Capítulo 6

Pois é, há sempre um dia na vida que pode virar tudo do avesso. O meu calhou a um domingo em que estávamos todos sentados a conversar, junto à lareira, e em que a Carlota, muito dengosa e a fazer-se a uns miminhos se sentou junto à mamã.

Esta, uma senhora muito arguta, olhou para ela com redobrada atenção e exclamou:

- Carlota! Tu não estás gorda, tu estás grávida!

A frase caiu como um meteoro na sala silenciando todas as conversas.

Mas a Carlota enfrentou corajosamente a senhora. Aliás, mais do que isso, não manifestou o mais pequeno indício de preocupação mas, a verdade é que eu não sabia onde me havia de meter. Estava assustado e intrigado. Entendia que deveria enfrentar tudo e todos indo assim em defesa da minha dama. Esta, por outro lado, estava perfeitamente tranquila, com os olhos semicerrados sem parecer que fosse lá o que fosse que se estava a passar tivesse nada a ver com ela e sem precisar minimamente de ser defendida. E eu ali, assim, sem saber mesmo que fazer.

Estava eu nesta aflição, uma mescla de medo e tentativa de ser audaz, quando percebi que não era de zanga a expressão da senhora do sorriso simpático.

Estava surpreendida, é certo, mas risonha, acarinhando o mais possível a Carlota, fazendo-lhe perguntas acerca do seu bem-estar, das suas necessidades, combinando visitas ao médico, etc.

Com as coisas a correr desta forma comecei também eu a ficar um pouco mais calmo e, orgulhoso e, claro, fui-me aproximando de ambas.

Mas, para mim, afinal a situação não era idêntica.

Com muita meiguice e de forma muito ternurenta, a “mamã” mandou-me sentar ao seu lado e comunicou-me que eu ia ser pai o que, francamente, já tinha percebido, não sou propriamente burro. Mostrei-me, obviamente, radiante e ciente das minhas responsabilidades.

Porém, a conversa não havia terminado e, ainda com doçura mas de forma muito firme, avisou-me que a partir de agora, eu iria ter que ficar separado das meninas e ir para os aposentos dos meus amigos mais velhos, os rapazes da casa, não fosse o diabo tecê-las e haver mais algum deslize com qualquer outra. A verdade é que era um pouco disputado por todas elas. De formas diferentes, é certo, mas não me passavam despercebidas as suas subtis investidas.

Mas, para mim, naquela época, existia apenas a Carlota! E ia ficar separado dela! Ver-nos-iamos, é certo, vivíamos na mesma casa, mas sempre de longe ou na companhia de todos.

Como devem imaginar fiquei completamente devastado pela separação a que me vi obrigado. Estava muito bem instalado, é verdade. Ocupava, finalmente, a suite que me havia sido atribuída desde início; assim uma espécie de apartamento de rapaz solteiro, mas a verdade é que nem todas essas mordomias me animavam.

Foi um tempo triste para mim. Por um lado sentia-me um adulto, o que era bom. Deixara há muito as minhas inseguranças de jovem adolescente para trás e hoje era um adulto bem sucedido. Dava-me bem com a restante rapaziada e passámos momentos agradáveis. Todavia, lá bem no fundo, nunca deixei de sentir aquela pequena aguilhoada no peito que nos faz encolher: a saudade.

A Carlota, a minha amiga, a minha companheira, fazia-me falta.